quarta-feira, 9 de julho de 2008

Ser ou ter: eis a questão

Essa é uma questão que tenho me deparado todos os dias... antes, pensava que precisava "ser" para "ter", mas hoje, justamente pela mudança de valores que estamos tendo atualmente, na chamada sociedade do consumo, a questão de possuir, consumir toma o sentido, ela que molda o ser. O Frei Betto, fala da "síndrome da grife: onde a pessoa é a mesma, mas a mercadoria que reveste passa a ter mais valor que o ser, e passa a imprimir o valor" (LISBOA ; FAUSTINO apud Frei Betto).
Isso me lembra muito Carlos Drummond de Andrade, com o poema Eu, etiqueta, aliás, super atual falando do humano, do ser sentinte e solidário, que para ficar/estar na moda nega sua identidade. Acredito que essa frase possa, por vezes resumir nossas atitudes: "escravo da matéria anunciada". Venho refletindo intensamente sobre a nossa sociedade, forma como nos comportamos atualmente frente a essas questões. Nos levamos pela aparência, e nos enganamos com ela, porque a aparência é bem aceita.
Outro dia estava na casa de meu amigo em São Paulo, e li uma reportagem bem interessante falando sobre a "pobrefobia". O título era A viadagem encampando a pobrefobia, e o artigo era uma crítica a Parada Gay, que havia perdido seu sentido de manifestação, protesto, luta contra a homofobia, preconceito, para se tornar uma exibição infinita de corpos e roupas de marcas. De nenhuma maneira, estou aqui criticando o movimento, do qual sou a favor, pois acredito na diversidade, em todos os seus aspectos. Porém, se um movimento começa a separar, excluir, acredito que seja necessário uma revisão de valores.
Bem, abaixo o poema do Drummond, que vale a pena ser lido, relido, refletido, e quem sabe assumido, como um discurso em favor das relações humanas, personalidade e valores não baseados não em concepções mercantilistas

Eu, etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais.
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas
todos os logotipos de mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem a vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco de roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me retiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estásticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo indústrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.

REFERÊNCIA
LISBOA, A. de M. ; FAUSTINO, A. V. Trocas solidárias, moeda e espiritualidade. Disponível em: http://www.tau.org.ar/upload/89f0c2b656ca02ff45ef61a4f2e5bf24/trocas_solidarias_dea_lisboa_1_.pdf. Acesso em: 2 jul. de 2008.

NASCIMENTO, P. A viadagem encampando a pobrefobia. Caros Amigos, Disponível em: http://carosamigos.terra.com.br/nova/ed124/nascimento.asp. Acesso em: 9 jul. de 2008.

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